O PAPEL DA ESCOLA É ENSINAR LÍNGUA
PADRÃO
POSSENTI, Sírio. Por que (não) ensinar gramática na escola.
Campinas: Mercado das Letras, 1996.
É
importante que este tópico fique claro, e esteja na memória do leitor, quando estiver
eventualmente achando estranha alguma das teses seguintes. Talvez deva repetir que
adoto sem qualquer dúvida o princípio (quase evidente) de que o objetivo da
escola é ensinar o português padrão, ou, talvez mais exatamente, o de criar
condições para que ele seja aprendido. Qualquer outra hipótese é um equívoco
político e pedagógico. A tese de que não se deve ensinar ou exigir o domínio do
dialeto padrão dos alunos que conhecem e usam dialetos não padrões baseia-se em
parte no preconceito segundo o qual seria difícil aprender o padrão. Isto é
falso, tanto do ponto de vista da capacidade dos falantes quanto do grau de
complexidade de um dialeto padrão. As razões pelas quais não se aprende, ou se
aprende mas não se usa um dialeto padrão, são de outra ordem, e têm a ver em
grande parte com os valores sociais dominantes e um pouco com estratégias
escolares discutíveis. Vou expandir um pouco e justificar as afirmações acima.
Antes, preciso dizer que considero que estamos todos de acordo sobre um ponto: que
o problema do ensino do padrão só se põe de forma grave quando se trata do
ensino do padrão a quem não o fala usualmente, isto é, a questão é
particularmente grave em especial para alunos das classes populares, por mais
que também haja alguns problemas decorrentes das diferenças entre fala e
escrita, qualquer que seja o dialeto (mas, insisto sobre a hipótese de que,
provavelmente, tais problemas sejam mais de tipo textual do que de tipo
gramatical).
Como
toda a boa tese, a que estou defendendo aqui é afirmada contra alguma outra,
real ou hipotética, às vezes atribuída aos linguistas. Dentre as que
defenderiam que a função da escola é ensinar português padrão, aquelas que vale
a pena comentar são basicamente duas. Uma é de natureza político-cultural.
Outra, de natureza cognitiva.
A
tese de natureza político-cultural diz basicamente que é uma violência, ou uma injustiça,
impor a um grupo social os valores de outro grupo. Ela valeria tanto para guiar
as relações entre brancos e índios quanto para guiar as relações entre — para
simplificar um pouco — pobres e ricos, privilegiados e
"descamisados". Dado que a chamada língua padrão é de fato o dialeto
dos grupos sociais mais favorecidos, tornar seu ensino obrigatório para os
grupos sociais menos favorecidos, como se fosse o único dialeto válido, seria
uma violência cultural. Isso porque, juntamente com as formas linguísticas (com
a sintaxe, a morfologia, a pronúncia, a escrita), também seriam impostos os valores
culturais ligados às formas ditas cultas de falar e escrever, o que implicaria
em destruir ou diminuir valores popu1ares. O equívoco, aqui, parece-me, é o de
não perceber que os menos favorecidos socialmente só têm a ganhar com o domínio
de outra forma de falar e escrever. Desde que se aceite que a mesma língua
possa servir a mais de uma ideologia, a mais de uma função, o que parece hoje
evidente.
Isso poderia parecer óbvio, mas é aqui que
começa a funcionar o outro equívoco, o de natureza cognitiva. Ele consiste em
imaginar que cada falante ou cada grupo de falantes só pode aprender e falar um
dialeto (ou uma língua). Dito de outra maneira: a defesa dos valores
"populares" suporia que o povo só fala formas populares, e que elas são
totalmente distintas das formas utilizadas pelos grupos dominantes. O que vale
para formas linguísticas valeria para outras formas de manifestação cultural. A
hipótese supõe também que o aprendizado de uma língua ou de um dialeto é uma
tarefa difícil, ou, pelo menos, difícil para certos grupos ou para certas
pessoas. Ora, todas as evidências vão no sentido contrário. Qualquer pessoa,
principalmente se for criança, aprende com velocidade muito grande outras
formas de falar, sejam elas outros dialetos ou outras línguas, desde que
expostas consistentemente a elas. Em resumo, aprender outro dialeto é
relativamente fácil. Portanto, nenhuma das razões para não ensinar o dialeto
padrão na escola têm alguma base razoável.
Em
que consistiria o domínio do português padrão? Do ponto de vista da escola, trata-se
em especial (embora não só) da aquisição de determinado grau de domínio da escrita
e da leitura. É evidentemente difícil fixar os limites mínimos satisfatórios
que os alunos deveriam poder atingir. Mas, parece razoável imaginar, como
projeto, que a escola se proponha como objetivo que os alunos, aos 15 anos de
vida e 8 de escola, escrevam, sem traumas, diversos tipos de texto (narrativas,
textos argumentativos, textos informativos, atas, cartas de vários tipos etc.;
pode-se excluir a produção de textos literários dos objetivos da escola, já que
literatos certamente não se fazem nos bancos escolares; o máximo que se pode
esperar é que eles aí não se percam) e leiam produtivamente textos também variados:
textos jornalísticos, como colunas de economia, política, educação, textos de divulgação
científica em vários campos, textos técnicos (aí incluído o manual de declaração
do imposto de renda, por exemplo) e, obviamente, e com muito destaque, literatura.
No final do segundo grau, deveriam conhecer a literatura contemporânea e os principais
clássicos da língua. Seria bom que conhecessem também, nesse nível de formação
escolar, pelo menos alguns dos principais clássicos da literatura universal,
pelo menos nas edições condensadas.
Para
que as posições aqui defendidas façam sentido, é preciso antes ler claro que tal
objetivo certamente não é atingido atuaImente, como regra, São relativamente
poucos os alunos egressos do segundo grau que executam esses dois tipos de
atividade com frequência e naturalidade. Mas, gostaria de deixar claro que não
se está propondo um projeto inexequível, nem novo. É apenas o óbvio. O que
proponho é que o óbvio seja efetivamente realizado. Uma das medidas para que
esse grau de utilização efetiva da língua escrita possa ser atingido é escrever
e ler constantemente, inclusive nas próprias aulas de português. Ler e escrever
não são tarefas extras que possam ser sugeridas aos alunos como lição de casa e
atitude de vida, mas atividades essenciais ao ensino da língua. Portanto, seu
lugar privilegiado, embora não exclusivo, é a própria sala de aula.
As
razões pelas quais — às vezes — a escola fracassa na consecução desse objetivo
são variadas. Como disse acima, as razões podem ser de ordem metodológica (pedagógica)
ou decorrentes de valores sociais complexos. Alguns desses empecilhos podem ser
destruídos na própria escola. Outros, não. Alguns dos problemas que levam ao
fracasso têm a ver com a forma como se concebem a função e as estratégias do
ensino de língua. A única opção de uma escola comprometida com melhoria da
qualidade do ensino está entre ensinar ou deixar aprender... Qualquer outra
implica em conformar-se com o fracasso ou, pior, em atribuí-lo exclusivamente
aos alunos.